Príncipes sauditas ajudaram Al Qaeda, diz terrorista em prisão americana

Scott Shane
Em Washington (EUA)

4.fev.2015 - Em foto sem data, Zacarias Moussaoui, ex-agente da Al Qaeda condenado à prisão perpétua. Em recente depoimento em prisão federal de segurança máxima em Colorado (EUA), Moussaoui descreveu membros proeminentes da família real da Arábia Saudita como principais doadores da rede terrorista no final dos anos 1990

4.fev.2015 – Em foto sem data, Zacarias Moussaoui, ex-agente da Al Qaeda condenado à prisão perpétua. Em recente depoimento em prisão federal de segurança máxima em Colorado (EUA), Moussaoui descreveu membros proeminentes da família real da Arábia Saudita como principais doadores da rede terrorista no final dos anos 1990

Em um depoimento altamente incomum dentro de um presídio federal de segurança máxima, um ex-agente da Al Qaeda descreveu membros proeminentes da família real da Arábia Saudita como importantes doadores à rede terrorista no final dos anos 90 e alegou que ele discutiu um plano para abater o Força Aérea Um (o avião do presidente americano) com um míssil Stinger juntamente com um funcionário da embaixada saudita em Washington.

O membro da Al Qaeda, Zacarias Moussaoui, escreveu no ano passado ao juiz George B. Daniels, do Tribunal Distrital Federal para o Distrito Sul de Nova York, que está julgando o processo impetrado contra a Arábia Saudita por parentes dos mortos nos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Ele disse que queria testemunhar no caso, e após longas negociações com autoridades do Departamento de Justiça e do Birô de Presídios federal, uma equipe de advogados foi autorizada a entrar na prisão e colher seu depoimento por dois dias em outubro.

Em uma declaração na noite de segunda-feira (2), a embaixada saudita disse que a comissão nacional do 11 de Setembro rejeitou as alegações de que o governo saudita ou autoridades sauditas tinham financiado a Al Qaeda.

“Moussaoui é um criminoso demente cujos próprios advogados apresentaram evidência de que ele era mentalmente incompetente”, disse a declaração. “As palavras dele não têm nenhuma credibilidade.”

O diagnóstico de doença mental de Moussaoui foi dado por um psicólogo que testemunhou em prol dele, mas ele foi considerado competente para ser julgado pelas acusações de terrorismo. Ele foi sentenciado a prisão perpétua em 2006 e é mantido na prisão de segurança máxima do sistema federal, em Florence, Colorado. As acusações de Moussaoui não puderam ser verificadas.

As alegações de Moussaoui surgem em um momento delicado nas relações entre sauditas e americanos, menos de duas semanas após a morte do longevo monarca do país, o rei Abdullah, e sua sucessão por seu irmão, o rei Salman.

Foram frequentes as tensões entre os líderes sauditas e o governo Obama desde os levantes árabes de 2011 e os esforços para administrar a turbulência resultante na região. Moussaoui descreve ter se reunido na Arábia Saudita com Salman, na época príncipe herdeiro, e outros membros da realeza saudita enquanto lhes entregava cartas de Osama Bin Laden.

Há muito há evidência de que sauditas ricos deram apoio a Bin Laden, o filho de um magnata saudita do setor de construção, e à Al Qaeda antes dos ataques de 2001. A Arábia Saudita trabalhou estreitamente com os Estados Unidos no financiamento aos militantes islâmicos que combatiam o exército soviético no Afeganistão nos anos 80 e a Al Qaeda extraiu seus membros das fileiras dos combatentes islâmicos.

Mas a extensão e natureza do envolvimento saudita na Al Qaeda e se isso se estendeu ao planejamento e financiamento dos ataques do 11 de Setembro há muito é objeto de disputa.

O depoimento de Moussaoui, se considerado crível, fornece novos detalhes da extensão e natureza desse apoio no período pré-11 de Setembro. Em mais de 100 páginas de depoimento, que se juntou aos autos do processo no tribunal federal em Nova York na segunda-feira, ele aparenta ser calmo e altamente coerente, apesar dos advogados dos querelantes que colhiam seu depoimento não terem questionado suas declarações.

“Minha impressão era de que ele estava completamente são –focado e refletido”, disse Sean P. Carter, um advogado da Filadélfia do escritório Cozen O’Conner que participou do depoimento em nome dos querelantes.

Ele disse que os advogados precisaram receber uma isenção especial das “medidas administrativas especiais” que impedem muitos terroristas condenados nos presídios federais de se comunicarem com pessoas externas.

Moussaoui, de origem francesa, foi detido semanas antes do 11 de Setembro sob acusações relacionadas a imigração em Minnesota, de modo que estava detido no momento dos ataques. Em 2001, ele teve aulas de voo e recebeu uma transferência de US$ 14 mil por uma célula da Al Qaeda na Alemanha, evidência de que ele poderia estar se preparando para se tornar um dos sequestradores.

Ele disse no depoimento na prisão de que foi instruído em 1998 ou 1999 por líderes da Al Qaeda no Afeganistão a criar um banco de dados digital dos doadores ao grupo. Entre aqueles que ele disse estarem listados no banco de dados estavam o príncipe Turki al-Faisal, o então chefe de inteligência saudita; o príncipe Bandar Bin Sultan, o embaixador saudita para os Estados Unidos; o príncipe Al-Waleed Bin Talal, um proeminente investidor bilionário, e muitos dos principais clérigos do país.

“O xeque Osama queria manter um registro de quem deu dinheiro”, ele disse em inglês imperfeito, “quem deve ser ouvido ou quem contribuiu à jihad”.

Moussaoui disse que atuou como mensageiro para Bin Laden, levando mensagens pessoais a proeminentes príncipes e clérigos sauditas. E ele descreveu seu treinamento nos campos da Al Qaeda no Afeganistão.

Ele ajudou a realizar uma explosão de uma bomba de 750 quilos como teste para um plano de ataque com carro-bomba à embaixada americana em Londres, ele disse, usando a mesma arma dos ataques da Al Qaeda em 1998 às embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia. Ele também estudou a possibilidade de realizar ataques com aviões pulverizadores.

Além disso, disse Moussaoui, “nós conversamos sobre a possibilidade de abater o Força Aérea Um”.

Especificamente, ele disse, ele se reuniu com um funcionário do Departamento de Assuntos Islâmicos da embaixada saudita em Washington, quando o funcionário saudita visitou Kandahar.

“Eu deveria ir a Washington para sair com ele” para “encontrar um local de onde poderia ser viável disparar um míssil Stinger e então, em seguida, poder escapar”, ele disse.

Ele disse que foi preso antes de poder realizar a missão de reconhecimento.

O comportamento de Moussaoui em seu julgamento em 2006 foi às vezes errático. Ele tentou demitir seus próprios advogados, que apresentaram evidência de que ele sofria de uma séria doença mental. Mas a juíza Leonie M. Brinkema, que presidia, declarou que ela estava “plenamente ciente de que o sr. Moussaoui é competente” e o chamou de “um homem extremamente inteligente”.

“Ele na verdade tem um melhor entendimento do sistema legal do que alguns advogados que já vi na corte”, ela disse.

Também foram adicionadas aos autos do processo na segunda-feira as declarações dos ex-senadores Bob Graham, da Flórida, e Bob Kerrey, de Nebraska, e do ex-secretário da Marinha, John Lehman, argumentando que mais investigação era necessária sobre os laços sauditas com o plano do 11 de Setembro. Graham foi copresidente do Inquérito Conjunto do Congresso a respeito dos ataques, e Kerrey e Lehman serviram na Comissão do 11 de Setembro.

“Eu estou convencido de que havia uma linha direta entre pelo menos alguns dos terroristas que realizaram os ataques do 11 de Setembro e o governo da Arábia Saudita”, disse Graham, que há muito exige a divulgação das 28 páginas do relatório do Congresso sobre os ataques que tratam das ligações sauditas e que permanecem confidenciais.

Kerrey disse que foi “fundamente inexato e enganador” argumentar, como fizeram os advogados da Arábia Saudita, que a Comissão do 11 de Setembro exonerou o governo saudita.

As declarações das três ex-autoridades não tratam do depoimento de Moussaoui.

O processo do 11 de Setembro foi inicialmente impetrado em 2002, mas enfrentou anos de obstáculos legais. Ele foi indeferido em 2005 com base de que a Arábia Saudita desfrutava de “imunidade soberana” e essa decisão foi mantida pelo Tribunal Federal de Apelações do 2º Circuito.

Mas o mesmo tribunal de apelações reverteu posteriormente a sentença, ordenando que o processo fosse reaberto. O governo saudita apelou à Suprema Corte, mas ela se recusou a ouvir o caso, de modo que este foi enviado de volta ao Tribunal Federal Distrital em Manhattan. Os documentos adicionados aos autos na segunda-feira foram em oposição ao mais recente pedido pela Arábia Saudita para que o caso seja indeferido.

Carter, o advogado dos querelantes, disse que ele e seus colegas esperam retornar à prisão no Colorado para realizar questionamento adicional com Moussaoui e que foram informados pelas autoridades carcerárias que estão autorizados a fazê-lo.

“Nós estamos confiantes de que ele tem mais a dizer”, disse Carter.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

fonte: the newyork times