Estudo dos EUA mede importância da “má sorte” no risco de câncer

Nuño Domínguez

4.fev.2015 - Vaddi Akhila, em tratamento no Hospital do Câncer e Centro de Pesquisa Indo-americano Basavatarakam, participa de caminhada pela conscientização sobre a doença em Hyderabad, na Índia. O Dia Mundial de Combate ao Câncer é celebrado nesta quarta-feira (4)

4.fev.2015 – Vaddi Akhila, em tratamento no Hospital do Câncer e Centro de Pesquisa Indo-americano Basavatarakam, participa de caminhada pela conscientização sobre a doença em Hyderabad, na Índia. O Dia Mundial de Combate ao Câncer é celebrado nesta quarta-feira

Estudo provoca polêmica ao atribuir ao acaso boa parte do risco de tumores. A mortalidade do câncer está aumentando com o envelhecimento da população 

Em um de seus contos, Jorge Luis Borges inventou a loteria da Babilônia, controlada por uma organização cada vez mais secreta e poderosa que acaba dominando a vida de todos os habitantes. O prêmio em alguns casos era a morte, e a loteria, uma variante do destino. “A Babilônia não é outra coisa senão um infinito jogo de azar”, escreveu o argentino.

No mundo real, o câncer também é um infinito jogo de azar. Grande parte dos tumores conhecidos não se deve a fatores externos evitáveis, como fumar, nem a razões hereditárias escritas nos genes, mas também ao puro acaso. Agora, um estudo quantificou o peso desse fator sorte no câncer. Seus resultados, publicados na revista “Science”, confirmam que a “má sorte” explica dois terços de todo o risco de câncer em um tecido, enquanto as variáveis genéticas e ambientais explicam o outro terço.

A má sorte se deve a “mutações aleatórias que ocorrem durante a divisão anormal das células-tronco quando estas se produzem em genes que intervêm no desenvolvimento do câncer”, explica o estatístico e matemático da Universidade Johns Hopkins (EUA) Cristian Tomasetti, coautor do trabalho. “Possivelmente isto não contradiz o que já se pensava, mas é a primeira vez que se mede a contribuição dessa má sorte, e acontece que tem um papel mais importante do que se supunha”, argumenta.

No corpo há tecidos que têm milhões de vezes maior probabilidade que outros de desenvolver um tumor. Nem os fatores externos nem os genéticos poderiam explicar toda a diferença, por exemplo, de os tumores de pulmão serem muito mais frequentes que os de ossos, inclusive em não fumantes. O trabalho quantifica agora o papel da outra grande peça do quebra-cabeça: as células-tronco. Cada vez que uma célula-tronco se divide para gerar outra, seu DNA é copiado, e nesse processo ocorrem erros que, acumulados, explicam grande parte dos tumores. Junto com seu companheiro Bert Vogelstein, oncologista na Johns Hopkins e prêmio Príncipe de Astúrias das Ciências em 2004, Tomasetti calculou quantas divisões celulares há em 31 tecidos do corpo ao longo de uma vida inteira e demonstrou que esse número está fortemente relacionado ao risco de sofrer um tumor nesses tecidos. Quanto mais divisões, maior o risco. Ao todo, cerca de 65% dos tumores seriam explicados por esse fator sorte, segundo seus dados.

Um exemplo: no cólon há cerca de 150 vezes mais divisões de células-tronco do que no duodeno, o que explica por que nele os tumores são até 30 vezes mais frequentes, embora os riscos hereditários sejam os mesmos. Algo parecido acontece ao comparar as células basais da pele com os melanócitos. Ambas recebem risco externo idêntico em forma de radiação solar, mas as basais se dividem muito mais e por isso o carcinoma de células basais é muito mais frequente que o melanoma.

Com seus dados estatísticos nas mãos, os autores dividem os 31 tumores estudados em dois grandes tipos. Em um figuram o câncer de pulmão em fumantes, o câncer de fígado em pacientes com hepatite C e outros sete tipos nos quais fatores externos e hereditários se somam ao risco inerente de que esses órgãos desenvolvam um tumor. No outro figuram 22 tumores como o câncer de pulmão em não fumantes, o glioblastoma, a leucemia linfocítica crônica ou o câncer de esôfago, cuja causa é primordialmente esse fator sorte baseado na divisão das células-tronco.

O bioestatístico Tomasetti ressalta duas conclusões importantes. A primeira é que embora até agora o fato de que uma pessoa não tivesse câncer apesar de estar exposta a substâncias cancerígenas como a fumaça de tabaco fosse atribuído a “bons genes”, a verdade é que na maioria dos casos só teve “boa sorte”. A segunda é que, enquanto mudar os maus hábitos é uma ajuda enorme para prevenir alguns tipos de câncer, isto não é tão eficaz para outros”. “Por isso deveríamos nos esforçar mais na investigação e em recursos para desenvolver formas de detecção precoce para esses e outros tipos de câncer nas etapas iniciais, quando ainda são curáveis”, conclui.

O pesquisador da Universidade de Oviedo Carlos López-Otín é cético sobre esse estudo. Por um lado, falar em “má sorte” no câncer pode “levar à confusão”, diz, e fazer que as pessoas baixem a guarda supondo que grande parte de seu risco de câncer é inevitável. Por outro, salienta, este estudo não traz conceitualmente nada de novo, além de quantificar estatisticamente a contribuição de fatores genéticos, ambientais e os devidos ao mero acaso.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

fonte: El Pais