Respostas Às Objeções Contra A Liderança das Igrejas Nos Lares – Parte 5 – Final

Liderança nos Evangelhos e nas Cartas Gerais do Novo Testamento

Nesta última parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais algumas passagens e argumentos baseados nos Evangelhos e nas cartas gerais do Novo Testamento. Muitas delas têm sido mal traduzidas, mal compreendidas, e utilizadas para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã, enquanto que, na realidade, a liderança em todo o Novo Testamento era funcional – uma liderança baseada na maturidade, na integridade e nos dons de cada líder, cuja autoridade era reconhecida espontaneamente pelo grupo, devido ao exemplo de vida e não à imposição institucional de cargos ou títulos. Como nas demais partes, citaremos as versões mais usadas no Brasil – a Almeida Revista e Atualizada (ARA) e a Nova Versão Internacional (NVI)

 

 

Hebreus 13.17 não manda que nós obedeçamos e nos submetamos aos nossos líderes, implicando que os líderes cristãos possuem autoridade oficial?

“Obedecei a vossos guias, sendo-lhes submissos; porque velam por vossas almas como quem há de prestar contas delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.” (Heb. 13.17. ARA)
“Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.” (Heb. 13.17. NVI)
Mais uma vez, uma olhada no Grego bíblico esclarece bastante. A palavra traduzida como “obedecei” no verso 17 de Hebreus 13 é a palavra peitho. Peitho significa “persuadir, convencer, aplicar persuasão  e não “obedecer”. Este significado (persuadir) consta em vários léxicos Grego-Português, porém, nenhum tradutor usou-o para traduzir a palavra em Português com o seu significado real, devido às suas preconceituosas mentalidades institucionais. Como esta palavra aparece no verso na voz passiva, este verso deveria ter sido traduzido como “deixem-se ser persuadidos pelos seus líderes”.
O texto é uma exortação para valorizar as instruções dos supervisores das igrejas locais – os presbíteros – e talvez também dos apóstolos e de seus cooperadores. Não é uma exortação à obediência cega. O verso implica que o líder deve persuadir – convencer – ao invés de coagir com uso de poder institucional. Obediência cega a líderes humanos não se harmoniza com as instruções sobre liderança na igreja do Novo Testamento.
A submissão de que fala o verso é voluntária, baseada no respeito à autoridade interna que os líderes cristãos devem ter, devido aos seus exemplos de vida e conhecimento da Palavra de Deus. Jamais, no Novo Testamento, a submissão aos líderes é forçada pelo poder institucional de um cargo “oficial”.
A Bíblia ensina que aqueles que cuidam das almas das igrejas têm que prestar contas a Deus. Isto não significa que essas pessoas têm autoridade sobre os demais?
Hebreus 13.17 diz que aqueles que supervisionam as igrejas têm que prestar contas a Deus pelo que fazem. Prestar contas a Deus não é o mesmo que ter autoridade sobre os outros. Todos os crentes têm que prestar contas a Deus do que fazem (Mat. 12.36; 18.23; Luc. 16.12; Rom. 3.19; 14.12; Heb. 4.13; 1 Ped. 4.5). Porém, isto não significa que eles têm autoridade sobre outros. Aliás, desejar ter domínio sobre os outros é carnal – não provém do Espírito Santo.
Jesus não endossou a autoridade oficial quando mandou seus discípulos obedecerem aos escribas e aos fariseus porque eles se assentam na cadeira de Moisés?

“Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façamo que eles fazem, pois não praticam o que pregam.” (Mat. 23.2-3. NVI)
Quando Jesus disse que os fariseus se assentam na cadeira de Moisés, afirmou que eles usurparam a autoridade sobre o povo. Eles mesmos se apontaram como chefes. Os fariseus não tinham autoridade; eram falsos, hipócritas (Mat. 23.5-7; 13-33 Luc. 20.46). Eles ensinavam a Lei de Moisés, mas eles mesmos não seguiam as próprias instruções que davam ao povo.
A “cadeira de Moisés” era uma cadeira especial colocada no canto de uma sinagoga, onde as Escrituras eram lidas. Quando os fariseus sentavam na cadeira de Moisés, eles liam as Escrituras. Como as Escrituras têm autoridade divina, o que os fariseus diziam, neste caso, deveria ser seguido. A autoridade era das Escrituras, e não dos fariseus. A grande lição aqui é: mesmo que um falso líder cristão ensine a Bíblia, se o seu ensino for realmente bíblico, deve ser respeitado e seguido (o ensino, porém não o falso líder).
Portanto, Jesus não estava endossando a autoridade dos fariseus, e sim a da Bíblia.
O Novo Testamento grego não apóia a idéia de que existem clérigos e leigos na igreja? “A dicotomia clérigo/leigo é uma falha trágica que percorre a história da cristandade.” (Frank Viola)
Essa dicotomia é defendida por muitos pela via do dogmatismo; não possui suporte bíblico.
A palavra “leigo” é derivada da palavra grega laos. Ela simplesmente significa “povo”, e, no Novo Testamento, inclui todos os cristãos, inclusive os líderes. A palavra aparece três vezes em 1 Pedro 2.9-10, onde Pedro se refere ao povo (laos) de Deus. Nunca essa palavra é usada para significar uma parte do povo de Deus.
Já a palavra clérigo é derivada de kleros. Kleros significa “herança”. A palavra aparece em 1 Pedro 5.3, onde Pedro exorta os presbíteros a não serem senhores (dominadores) sobre a herança de Deus (o seu povo). Kleros nunca significa “líderes” no Novo testamento. Assim como a palavra laos, ela se refere sempre ao povo de Deus – pois o povo de Deus é a sua herança.
De acordo com o Novo Testamento, portanto, todos os cristãos são clérigos e todos também são leigos. Nós somos a herança de Deus e também seu povo.
A dicotomia clérigo/leigo é pós-bíblica e prejudica a igreja. Ela advém da idéia pagã de separar a vida espiritual da vida secular. No Novo Testamento, é ensinado que toda a nossa vida deve trazer glória a Deus, inclusive a vida cotidiana.
Os sete anjos das igrejas no livro de Apocalipse representam a presença de um pastor único em cada igreja local?
A referência a anjos das igrejas em Apocalipse é difícil de entender. O autor não nos dá uma pista sobre a identidade deles. Aliás, o livro de Apocalipse é grandemente figurado, simbólico, portanto, estabelecer doutrina cristã a partir deste livro vai de encontro a um dos princípios que regem a interpretação bíblica saudável, “As doutrinas cristãs devem ser fundamentadas nas passagens claras das Escrituras”.
Além disso, não existe no Novo Testamento a idéia de pastor solo em uma igreja local. A liderança é sempre plural (Atos 20.17; 20.28). Também não se vê no Novo Testamento os conselhos dirigentes das igrejas tendo um “superior” entre eles. Hierarquia é coisa do homem.
A palavra anjo (do Grego angelos) significa mensageiro (de Deus ou do Diabo), porém não é usada na Bíblia inteira significando um homem. Sempre que aparece nas Escrituras, significa um ser celestial ou infernal. A simbolização de anjos como pastores humanos é uma coisa estranha ao contexto da Bíblia como um todo. Considerando o contexto geral da Bíblia, o mais natural é entender que este verso em Apocalipse está se referendo a um ser celestial.
Portanto, deduzir a doutrina do pastor-solo ou do pastor-chefe a partir dessa passagem é uma exegese falha.
Enfim, como se pode ver, não há suporte no Novo Testamento para a liderança hierárquica, posicional, derivada de cargos e títulos “oficiais”. A liderança praticada nas modernas igrejas institucionais é derivada da imitação do governo mundano, imposta à igreja pelo Imperador Romano Constantino, e não seguida a partir das Escrituras neo-testamentárias.
Mas, que mal há nisso? O mesmo mal que existe sempre que o povo de Deus quer imitar o mundo, ao invés de seguir a Deus. Basta lembrar que o Senhor não queria que Israel tivesse um rei humano, e eles teimaram e pediram a Samuel para instituir um, a exemplo das outras nações (pagãs). Embora a misericórdia de Deus seja grande, as conseqüências para Israel foram terríveis. Pouquíssimos foram os reis bons de Israel. O que Deus disse a Samuel quando o viu triste por causa do pedido da nação Israelense para ter um rei humano? “Atenda a tudo o que o povo está lhe pedindo; não foi a você que rejeitaram; foi a mim que rejeitaram como rei.” (1 Sam. 8.7). Há sempre um mal em rejeitar a Deus como rei, e em estabelecer homens em seu lugar. Há um mal em rejeitar a Cristo como “a autoridade” da igreja, e estabelecer homens como autoridades oficiais. E há conseqüências ruins disto, como, aliás, se vê nas igrejas institucionais, manifestas como vaidade e briga pelo poder. Tudo é vaidade.
FONTE: Marcio Rocha