Respostas Às Objeções Contra A Liderança das Igrejas Nos Lares – Parte 4

Liderança em Atos e Nas Cartas de Paulo – Parte 4

As versões brasileiras da Bíblia muitas vezes a traduzem com tendências institucionais nas passagens relativas à liderança na igreja, levando as pessoas a interpretarem que as igrejas do Novo Testamento praticavam uma liderança hierárquica, titular e posicional – o que está longe da verdade. Nesta quarta parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais algumas passagens e argumentos baseados em Atos e nas cartas de Paulo, que têm sido mal utilizados para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã. Como nas demais partes, citaremos as versões mais usadas no Brasil – a Almeida Revista e Atualizada (ARA) e a Nova Versão Internacional (NVI

 

 

Efésios 4.11 não fala de clérigos?

“E ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres” (Ef. 4.11. ARA)
“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” (Ef. 4.11. NVI)
Não. Efésios 4 fala de pessoas vocacionadas por Deus para servir ao seu povo e edificá-lo pela orientação e ensino. Os versos 12-13, em Grego, dizem:
“Para o aperfeiçoamento dos santos, para servir, para edificar o corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef. 4.12-13. Tradução nossa)
O texto bíblico em momento algum passa a idéia de cristãos especiais, em contraste com cristãos comuns – leigos. Deus simplesmente vocacionou alguns de seus servos para serem apóstolos, profetas, evangelistas e pastores-professores, visando respectivamente a plantação de igrejas e a edificação dos cristãos. O líder cristão é um líder-servo (a exemplo de Jesus Cristo) e não um líder autoritário (a exemplo dos líderes do mundo).
Entretanto, não estamos afirmando aqui que todos os cristãos são apóstolos, profetas, evangelistas e pastores; mas que esses são chamados especiais feitos a algumas pessoas que estão no corpo de Cristo. E esses chamados NÃO tornam especiais as pessoas que os exercem. Efésios 4 não está falando de clérigos, nem de sacerdotes ou “ministros do evangelho”. O que está em vista em Efésios 4 são funções especiais, ao invés de títulos ou posições autoritárias.
A menção de “governos” ou “administração” em 1 Coríntios 12.28 demonstra que a igreja primitiva no primeiro século possuía oficiais de igreja?
 
 “E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.” (1 Cor. 12.28. ARA)
“Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dom de prestar ajuda, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas.” (1 Cor. 12.28. NVI)
A palavra do Grego Koiné traduzida como “governo” na ARA e como “administração” na NVI é kubernéssis. Segundo os maiores eruditos nos manuscritos do Novo Testamento – Doutores Kurt Aland, Matthew Black, Carlo Martini, Bruce Metzger e Allen Wikgren — esta palavra significa “habilidade de liderar”. Já vimos que liderar não é governar, mas sim, orientar e influenciar pelo exemplo. Assim, “governo” ou “administração” são traduções pobres para kubernéssis. São, na verdade, imposições do pensamento do homem moderno ao texto bíblico. O único governo que a igreja conhece é o de Cristo (Isa 9.6).
A metáfora de Paulo do Corpo de Cristo não demonstra que a autoridade funciona de modo hierárquico? Isto é, quando a cabeça quer enviar um comando à mão, ela envia antes um comando ao braço. Assim, a mão se submete ao braço para que este se submeta à cabeça.
  Nada poderia estar mais longe da verdade do que este pensamento. Quem conhece anatomia do corpo humano sabe que não é assim que ele funciona.
O cérebro envia comandos diretamente àquelas partes que ele quer controlar, por meio do sistema nervoso periférico. Consequentemente, o cérebro controla todas as parte do corpo diretamente e imediatamente, através dos nervos. Ele não envia comandos através de um esquema tipo cadeia-de-comando, invocando outras partes do corpo.
A metáfora de Paulo não poderia ser mais clara. A cabeça do corpo humano é conectada diretamente a cada parte do corpo, por meio do sistema nervoso. Assim também Cristo – O Cabeça da Igreja – está diretamente conectado a cada membro do seu corpo, a cada pessoa lavada com o seu sangue. Assim como a cabeça não envia comandos a uma parte do corpo para que esse comande outra parte, Cristo não envia comandos a algumas “autoridades da igreja” para que essas comandem os “leigos”.
O Corpo de Cristo – a igreja – não precisa de clérigos, intermediários entre ela e Deus. Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (1 Tim. 2.5). A sujeição mútua, a interdependência, e não a submissão hierárquica é o que coordena propriamente a igreja.
Todo corpo físico possui uma cabeça. Da mesma forma, todo corpo local de crentes necessita de uma cabeça. Se ele não tiver cabeça fica caótico. Os pastores são as cabeças das igrejas locais. Eles são pequenas cabeças abaixo da Liderança de Cristo.
  Esta idéia é típica do modo de pensar de humanos caídos. Não existe o menor suporte bíblico para este pensamento. A Bíblia NUNCA se refere a um humano como “cabeça” de uma igreja. Este título é exclusivo de Jesus Cristo. Ele é o ÚNICO cabeça de uma congregação local. Aqueles que se proclamam cabeças de igrejas suplantam o senhorio de Cristo.
João 5.30; 14.28, 31; e 1 Coríntios 11.3 não ensinam uma relação hierárquica dentro da Trindade Divina?
  “Por mim mesmo, nada posso fazer; eu julgo apenas conforme ouço, e o meu julgamento é justo, pois não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou.” (João 5.30. NVI)
“Vocês me ouviram dizer: Vou, mas volto para vocês. Se vocês me amassem, ficariam contentes porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu.”
(João 14.28.NVI)
“Todavia é preciso que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço o que meu Pai me ordenou. Levantem-se, vamo-nos daqui!” (João 14.31. NVI)
“Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus.” (1 Cor. 11.3. NVI)
Essas passagens não se referem ao relacionamento eterno do Filho com o Pai na Trindade. Elas se referem ao relacionamento temporal de Cristo com o Pai enquanto ele esteve como humano, na terra. Ele voluntariamente se submeteu à vontade do Pai enquanto esteve aqui. Na Trindade eterna, porém, o Pai e o Filho experimentam uma mútua submissão. Eles são iguais. A Trindade é uma comunhão de pessoas co-iguais. A comunhão do Deus triuno é igualitária e não hierárquica.
Veremos na próxima parte, outras objeções levantadas contra a liderança não hierárquica com base em outras passagens do Novo Testamento fora de Atos e das cartas de Paulo.
FONTE: Marcio Rocha