Respostas Às Objeções Contra A Liderança das Igrejas Nos Lares – Parte 3

Liderança Em Atos E Nas Cartas De Paulo – Parte 3

 

Nesta terceira parte do estudo sobre a liderança na igreja, vamos analisar mais alguns argumentos baseados em Atos e nas cartas de Paulo, que têm sido mal utilizados para defender uma liderança hierárquica, titular e posicional na igreja cristã.
Romanos 12.8, não ensina que Deus capacita certas pessoas para presidir a igreja? Lá, Paulo exorta que aquele que preside, deve fazê-lo com zelo.

 

 

Mais uma vez a palavra grega proistámenos foi mal traduzida em Português. A versão de João Ferreira de Almeida (ARA ou ARC) traduz essa palavra como “presidem”. Proistámenos (como já foi dito) significa “guiam” ou “lideram”. Presidir conota ter a responsabilidade pessoal de decidir os rumos de uma organização, em caráter final. Presidente é um conceito moderno que significa alguém que tem o poder final de decisão em uma organização ou comunidade, e isto é estranho ao Novo Testamento. Não se encontra um só caso no Novo Testamento em que algum presbítero local decide por toda a sua comunidade. Mesmo os apóstolos não clamavam para si este poder absoluto sobre uma comunidade local de cristãos. Por outro lado, guiar ou liderar é, antes de tudo, orientar e influenciar pelo conhecimento, sabedoria e exemplo. Essa é a autêntica função do pastor cristão. Decidir é prerrogativa de toda a igreja reunida (Atos 15), e jamais deve ser dada a uma só pessoa. Neste verso, concordo com a tradução da NVI: “Se é exercer liderança, que a exerça com zelo;…”
Atos 14.23 e Tito 1.5 ensinam que os presbíteros são eleitos. Isto não implica que eles são oficiais da igreja? “E, havendo-lhes feito eleger anciãos em cada igreja e orado com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (Atos 14.23, ARA)
“Paulo e Barnabé designaram-lhes presbíteros em cada igreja; tendo orado e jejuado, eles os encomendaram ao Senhor, em quem haviam confiado.” (Atos 14.23, NVI)
Talvez a intenção do tradutor João Ferreira de Almeida quando escreveu “eleger” tenha sido a de que Paulo e Barnabé tenham escolhido homens maduros na fé e na idade (presbíteros) para liderar aquela igreja local em Derbe. Porém a mente moderna entende “eleger” como selecionar democraticamente por voto majoritário – e isto está completamente em desacordo com o que de fato aconteceu. Não houve “votação” feita pela igreja. Ao invés disso, aqueles apóstolos – viajantes itinerantes – apontaram, indicaram quem eram os homens que já estavam nas igrejas em Derbe, aos quais elas deveriam respeitar, honrar, e se deixar ser lideradas. E inclusive, era mais de um presbítero-pastor em cada igreja – o texto deixa isto claro: “presbíteros em cada igreja”. A liderança em uma igreja local deve ser colegiada, nunca individual. Repare que os presbíteros já estavam lá. Já exerciam naturalmente as funções dos presbíteros. Os apóstolos só fizeram apontá-los perante as igrejas, como que reconhecendo-os perante todos.
Em Atos 14.23, o verbo grego é cheirotonésantes, que significa “escolher, apontar, indicar, mostrar”. A melhor tradução para o verso é:
“E, apontando presbíteros para eles em cada igreja, com orações e jejuns os confiaram ao Senhor, em quem haviam crido.” (Atos 14.23)
Vejamos agora Tito 1.5.
“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem o que ainda não o está, e que em cada cidade estabelecesses anciãos, como já te mandei;” (Tito 1.5, ARA)
“A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí.” (Tito 1.5, NVI)
As palavras grifadas nas citações acima, da ARA e da NVI respectivamente, foram traduzidas a partir da palavra grega katastêsses. Essa palavra está no tempo futuro do verbo katístemi, o qual possui os significados diversos de: designar; constituir; apontar; ordenar; estabelecer. É importante ressaltar que toda palavra que possui um amplo campo semântico, ou seja, que pode denotar ou conotar mais de um significado, deve ser entendida pelo seu contexto. A palavra “manga”, por exemplo, não significa a fruta manga na frase “enganchou a manga na fechadura, quando passou apressado; por isso a rasgou”. Embora o significado de manga como fruta faça parte do campo semântico da palavra “manga”, o lógico nesta frase é compreender que se está falando de manga de camisa. Da mesma forma, considerando o contexto do Novo Testamento, e em harmonia com outras passagens em Atos e nas cartas de Paulo, katístemi não pode significar “designar”, “constituir”, nem “ordenar”, nem “estabelecer”. Os presbíteros, no primeiro século, eram apontados pelos apóstolos (Atos 14.23). Assim, o verso deveria ter sido traduzido para o Português da seguinte forma:
“Por causa disto te deixei em Creta, para que colocasses as coisas restantes em ordem e apontasses presbíteros em cada cidade, como eu te mandei.” (Tito 1.5)
Pelo padrão do Novo Testamento, os presbíteros de uma igreja local não devem ser eleitos pela igreja. Devem ser reconhecidos e indicados pelo obreiro, ou pelos obreiros que a plantaram.
Paulo não utilizava o título de Apóstolo, quando se identificava na introdução de suas cartas? Não. Se apóstolo fosse um título, Paulo se identificaria como “Apóstolo Paulo”, e não como “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo”, assim como consta em nossos Novos Testamentos. Quando alguém exalta o título de uma pessoa, ele ou ela colocam o título primeiro, antes do nome próprio. Com essa intenção as pessoas chamam “Doutor Fulano” a alguém que é médico, ou concluiu um doutorado. Assim, incorporam o título de uma pessoa ao seu nome próprio. Essa é uma mentalidade bastante institucional e distanciada do Novo Testamento. É muito comum nas modernas igrejas institucionalizadas, os irmãos chamarem os líderes que foram empossados como pastores de “pastor” ou “reverendo”, antes dos seus nomes próprios. Isso é maléfico para a igreja, pois cria uma separação entre crentes comuns – os “leigos” e crentes “especiais” – os clérigos ou ministros.
Por outro lado, quando alguém coloca o nome da pessoa na frente da sua função, ela está dizendo que, embora reconheça a função da pessoa na comunidade, ela é um ser humano como qualquer outro. Paulo se identificava como Paulo – aquele que tinha a função de ser um apóstolo de Jesus Cristo; um plantador de igrejas, um missionário, enviado para pregar o evangelho e fazer discípulos do seu Mestre. Ser apóstolo não era um título para Paulo; era sua missão, sua carreira… e seu bom combate.

 

FONTE: Marcio Rocha