Respostas Às Objeções Contra A Liderança das Igrejas Nos Lares – Parte 2

Liderança Em Atos E Nas Cartas De Paulo – Parte 2

 

Em sequência ao estudo sobre liderança da igreja no Novo Testamento, vamos analisar mais algumas passagens em Atos e nas cartas de Paulo, que têm sido mal traduzidas ou mal interpretadas, fazendo com que muitos irmãos (mal) usem a Bíblia para defender uma liderança hierárquica na igreja.

 

 

As qualificações constantes nas chamadas “epístolas pastorais” (1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.6-10) não provam que bispos ou presbíteros são oficiais da igreja?

 

“Esta afirmação é digna de confiança: Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro. Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o Diabo. Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do Diabo.” (1 Tim. 3.1-7. NVI)
“É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão. Por ser encarregado da obra de Deus, é necessário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto. Ao contrário, é preciso que ele seja hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, consagrado, tenha domínio próprio e apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela.” (Tito 1.1-7. NVI)
Primeiramente, convém ressaltar que tudo que está escrito nas cartas a Timóteo e a Tito foi feito para instruir companheiros apostólicos. Já demonstramos antes que nem Timóteo nem Tito eram pastores de igreja (veja a parte 1 deste estudo). Paulo estava escrevendo para companheiros apostólicos, e não para igrejas ou para pastores.
Na passagem citada, a palavra que induz ao pensamento institucional é “governar”, que está em 1 Timóteo 3.4 e 5, e que, como veremos aqui, foi mal traduzida do Grego. A palavra grega traduzida como “governar” é proistámenos, que significa mais propriamente “guiando”, “estando à frente” ou “liderando”. Governar é ter autoridade para decidir: é mandar. Liderar/guiar é bem diferente; é mostrar o caminho e influenciar para que andem por ele. O governante é obedecido; o líder é seguido. O governante é temido; o líder é querido. O governante tem uma autoridade dada por uma instituição; o líder tem autoridade interior. A tradução correta deste verso é:
“Liderando bem sua própria casa, sendo os seus filhos sujeitos a ele, com todo o respeito. Pois, se alguém não sabe guiar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?” (1 Timóteo 3.4, 5)
Paulo está dizendo que a relação de liderança que o homem exerce na família se refletirá na igreja. Se ele não é respeitado pelos seus filhos, não será também respeitado na igreja. Se ele não orienta sua família, não saberá orientar os irmãos da igreja.
O que temos, portanto, nessas passagens, são qualidades essenciais de um verdadeiro supervisor de igreja, não uma lista de qualificações para um cargo a ser preenchido com uma eleição ou indicação. O próprio Paulo não chama o episcopado de ofício ou cargo, mas de função (1 Tim. 3.1). Nessas duas passagens, Paulo estava recomendando a Timóteo e a Tito que observassem, nas igrejas, os homens que já possuiam essas qualidades, e os reconhecessem perante o povo da igreja, para que eles pudessem lhes servir de guias e exemplos.
Por conseqüência, igualar os bispos nessas passagens com os modernos oficiais de igreja é “forçar a barra” na interpretação. É impor ao Novo Testamento a mentalidade do homem moderno, e assim, distorcer a Palavra de Deus.

 
1 Coríntios 12.28 não está determinando uma hierarquia de oficiais da igreja?
“E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.” (1 Coríntios 12.28. ARA)
Existe uma “mania” peculiar de pessoas do ocidente (herdada da cultura romana) de achar que toda lista deve ser vista como um posicionamento hierárquico do tipo “de cima para baixo”. Só que, enquanto o leitor ocidental moderno enxerga em listas como a de 1 Coríntios 12.28 uma hierarquia de ofícios, o Novo Testamento não o faz.
A questão de estruturas de autoridade não está sendo tratada nessa passagem. Portanto, interpretar a passagem como uma hierarquia de oficiais da igreja não é fazer uma exegese do texto; é impor a ele um sentido que ele não dá.
A tradução da ARA não traz nenhum problema nesta passagem. A dificuldade aqui é de interpretação, não de tradução.
A ordem que está sendo descrita no verso em pauta é uma ordem cronológica, e não posicional. O que Paulo está dizendo aqui é que Deus colocou na igreja primeiramente os apóstolos – esses foram os primeiros a surgir na igreja. Depois surgiram os profetas, e em terceiro os mestres; depois os demais. Não há qualquer indicação na passagem, de que os profetas eram subordinados aos apóstolos como se fossem oficiais em uma força armada. Quando o Senhor revelava algo a um profeta, este não pedia autorização a um apóstolo para proclamá-lo. Ao contrário, às vezes os profetas proclamavam revelações de Deus aos apóstolos, e esses as ouviam como ao Senhor (como no caso do profeta Ágabo – Atos 11.28 e 21.10). Da mesma forma os mestres não estavam subordinados aos profetas nem aos apóstolos. Todos eram subordinados diretamente a Jesus Cristo – o cabeça da igreja – como deve ser na igreja também hoje.
Não há na passagem hierarquia de ofícios. Não vejo na passagem sequer hierarquia de dons, como alguns estudiosos vêem. Vejo simples e naturalmente uma ordem cronológica de como Deus foi distribuindo dons ao seu povo e vocacionando-os para diferentes serviços. Tudo para a edificação da igreja.

 
E Atos 20.28; 1 Tess. 5.12; 1 Tim. 5.17-18; e Hebreus 13.17 não dizem que os bispos têm que “presidir ou governar sobre” a igreja?

Analisemos uma a uma as passagens.
“Cuidai pois de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele adquiriu com seu próprio sangue.” (Atos 20.28. ARA)
“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue.” (Atos 20.28. NVI)
Neste verso há um dos casos mais explícitos de erros de tradução que prejudicaram a doutrina da igreja. A palavra “sobre” foi traduzida da preposição grega en, que significa “entre”. Os presbíteros não estão sobre a igreja, como se fossem superiores; eles estão entre os irmãos, no meio da igreja, como iguais. Pesquisei em todos os léxicos Grego-Português publicados que tive acesso, e não encontrei NENHUM que traduzisse esta palavra como “sobre”. Assim como o leitor, fiquei surpreso e estupefato de ver como traduziram essa palavra erradamente, alterando o sentido do verso e da passagem inteira.
Os presbíteros têm um chamado nobre a exercer nas igrejas locais. São os pastores das igrejas. Devem ser honrados e respeitados. Mas nunca foram nem serão superiores hierarquicamente. Eles são iguais. Vejamos os outros versos.
“Ora, rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, presidem sobre vós no Senhor e vos admoestam;” (1 Tess. 5.12. ARA)
“Agora lhes pedimos, irmãos, que tenham consideração para com os que se esforçam no trabalho entre vocês, que os lideram no Senhor e os aconselham.” (1 Tess. 5.12. NVI)
A palavra grega traduzida na ARA como “presidem” é proistámenos, e já comentamos sobre o sentido adequado dessa palavra neste artigo. Aliás, a NVI a traduz corretamente como “lideram”. A palavra “sobre” na tradução da ARA é a mesma palavra grega en, já comentada na seção anterior. Dessa vez, a NVI a traduziu corretamente como “entre”. A tradução desse verso na ARA confunde o leitor moderno, passando-lhe a idéia errônea de que Paulo estava reafirmando a posição hierárquica organizacional dos presbíteros de Éfeso sobre os demais irmãos.
“Os anciãos que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino. Porque diz a Escritura: ‘Não atarás a boca ao boi quando debulha.’ E: ‘Digno é o trabalhador do seu salário.’” (1 Tim. 5.17-18. ARA)
“Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino, pois a Escritura diz: “Não amordace o boi enquanto está debulhando o cereal”, e “o trabalhador merece o seu salário”.” (1 Tim. 5.17-18. NVI)
A palavra que aparece como “governam” na ARA é a mesma proistámenos e como já foi visto, ela deveria ter sido traduzida como “guiam” ou “lideram”. Presbíteros não governam; eles lideram, guiam.
Além disso, acerca desse verso, há pessoas que lhe forçam a interpretação, dizendo que na palavra “honra” (Gr. timés) está implícito o sentido de “honorários”, porque os versos seguintes dão este sentido. Na verdade, essas pessoas desconhecem que Paulo está utilizando na passagem um recurso de linguagem chamado paralelismo, muito usado pelos escritores hebreus. Este recurso pode ser entendido como uma argumentação lógica, onde os elementos se colocam em paralelo. Veja como isto é feito:
Afirmação principal O presbítero que lidera e ensina merece honra

Argumentos paralelos
O boi merece comer enquanto debulha
O trabalhador merece salário
Montando as idéias esta passagem pode ser assim entendida: “Assim como o boi merece comer enquanto debulha, e o trabalhador merece o seu digno salário, os presbíteros que lideram bem, principalmente aqueles que pregam a palavra de Deus e a ensinam, merecem ser muito honrados pela igreja local.” Mais uma vez, o Novo Testamento não fala de hierarquia, nem de cargos, nem de ofícios, nem de salários de pastores. O “salário” de um pastor… é muita honra.
Vejamos agora Hebreus 13.17.
“Obedecei a vossos guias, sendo-lhes submissos; porque velam por vossas almas como quem há de prestar contas delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.” (Heb. 13.17. ARA)
“Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.” (Heb. 13.17. NVI)
A palavra grega traduzida como “obedecei” na ARA e “obedeçam” na NVI, é peithesthe. Essa palavra vem do radical peitho, que significa “persuasivo”. O correto, então, seria traduzir peithesthe como “deixem-se ser persuadidos” ou “procurem concordar”.
A outra palavra mal traduzida neste verso é upeikete, traduzida como “submetam-se”. Este verbo, embora também possa assumir o sentido de “submeter-se” em outro texto fora do Novo Testamento, não parece ser o sentido do verso aqui. Uma vez que o Novo Testamento nunca trata os líderes da igreja como “senhores”, a quem se deva submeter-se, o sentido mais apropriado de upeikete seria “dar precedência”, ou “dar preferência”
Assim, a tradução adequada do verso é:
“Procurem concordar com os seus líderes, e lhes dêem a preferência; porque vigiam pelas almas de vocês como se fossem prestar contas delas; para que o façam com alegria e não reclamando, porque isso não seria proveitoso.” (Heb. 13.17. ARA)
Esta tradução (nossa) fica em completa harmonia com o ensino do Novo Testamento sobre a liderança da igreja. Embora não sejam “oficiais”, os líderes eclesiais devem ser muito honrados, queridos e preferidos. Embora só devamos ser submissos a Cristo, o único Senhor, devemos procurar concordar com nossos líderes, que tanto se dedicam ao Senhor e à sua igreja.
FONTE: Marcio Rocha