As Práticas das Igrejas Orgânicas – As Reuniões das Igrejas Neotestamentárias

 

Dando sequencia á serie “As Práticas das Igrejas Orgânicas”, desta vez vamos falar sobre como as igrejas neotestamentárias/orgânicas se reúnem, e o que fazem durante as suas reuniões. Mais uma vez lembramos e enfatizamos que esta série de artigos objetiva contribuir com irmãos e irmãs que, neste querido Brasil, têm sido chamados a viver igreja organicamente, porém ainda não sabem como. Não intencionamos sistematizar uma ortopraxia nem qualquer tipo de liturgia para as igrejas nos lares, mas, apresentar sugestões de práticas que se harmonizam com a doutrina da igreja neotestamentária, principalmente a partir da nossa própria experiência nos últimos cinco anos. Afinal de contas, doutrina sem prática é hipocrisia. As nossas práticas devem expressar a nossa fé e os nossos princípios, do contrário estaremos fazendo algo apenas ritualístico ou “religioso”, dissociado da vida.

Reuniões, e não cultos
Também é preciso lembrar que a igreja neotestamentária não faz cultos; ela se reúne. Cultos (serviços religiosos) são práticas das igrejas institucionalizadas. As reuniões se diferenciam de cultos porque, quando alguém vai à uma reunião, vai para participar – para contribuir, e não apenas para assistir, no sentido de ver e/ou ouvir. Vai para servir, não apenas para ser servido. Vai também para edificar, não apenas para ser edificado. Participa como igual – como um irmão entre irmãos – e não como um cristão “leigo” para ouvir os cristãos “clérigos” ou “profissionais”. Todos somos leigos (o laos de Deus); e, ao mesmo tempo, todos somos clérigos (os kleros de Deus). Nós somos membros de um corpo, e nenhum membro de um corpo é passivo; cada um age (é ativo), de acordo com sua função e chamado.
Tipos de reuniões
As igrejas orgânicas, assim como a igreja do primeiro século, não possui apenas um tipo de reunião. Ela se reúne mais de uma vez por semana, para objetivos diferentes (embora o propósito seja o mesmo: a edificação do Corpo de Cristo na terra).
Cada comunidade orgânica possui uma reunião semanal principal (realizada normalmente em um lar), referenciada nos livros sobre igreja orgânica como reunião eclesial. Esta é uma reunião semanal de maior duração, onde os irmãos (1) cantam juntos, (2) oram juntos, (3) compartilham juntos a sua fé e experiências com Cristo, e (4) comem juntos. Não há liturgia fixa para essas atividades; elas ocorrem nas reuniões eclesiais de maneira livre e participativa, com muita sensibilidade ao Espírito Santo, e de acordo com as necessidades dos irmãos. Isto significa que, há reuniões eclesiais em que a ênfase é o cântico comunitário; noutras a ênfase é o compartilhar; há algumas em que predomina a oração. Normalmente há a refeição coletiva – a Ceia do Senhor. Mas há reuniões em que uma ou mais dessas quatro atividades não é praticada, mesmo a Ceia do Senhor. Essas reuniões eclesiais duram cerca de três ou quatro horas; portanto, é importante realizá-las num dia da semana que não seja dia de trabalho (sábado ou domingo).
A igreja pode também, por decisão dos membros, ter outras reuniões semanais. Uma delas pode ser a reunião para estudo bíblico, onde os presbíteros (irmãos mais vividos na fé) que possuem dons de mestre e de conhecimento ministram aos demais a Palavra do Senhor.
Embora a igreja normalmente ore nas reuniões eclesiais, ela pode se reunir especificamente para uma reunião de oração. Nela, a igreja se encontra somente para orar, principalmente pelas necessidades dos irmãos e de pessoas conhecidas, e para ações de graças.

A igreja se reúne também para a comunhão e o lazer. Essas reuniões são tão importantes quanto as eclesiais. Um dos princípios que os irmãos orgânicos vivenciam é o da “não religiosidade”, ou seja, não há separação entre vida e adoração ao Senhor. O lazer também é (deve ser) santo. Portanto, a igreja pode e deve se reunir especialmente para o lazer e para integração social. Nessas reuniões, os laços de amizade e o senso de comunidade da igreja são fortalecidos.
E a igreja local pode realizar reuniões de serviço (ou ministério), onde os irmãos se reúnem para servir aos necessitados – uma forma de adorar e realizar boas obras, para as quais os crentes foram salvos (Ef. 2.10).
As igrejas podem precisar se reunir para organização e planejamento. As igrejas orgânicas são organizadas; o que elas não são é institucionalizadas.
Quando já existirem várias igrejas orgânicas no bairro ou na cidade, as igrejas devem procurar participar eventualmente de grandes reuniões em lugares maiores (escolas, praças públicas, sítios ou chácaras, auditórios, teatros etc.). São celebrações conjuntas com outras igrejas orgânicas, para integração com a igreja do bairro, da região ou mesmo da cidade. Nas grandes reuniões, as igrejas unem seus musicistas e formam uma banda única para servir toda a igreja no canto, e também organiza a participação dos irmãos que irão falar, para que haja ordem e decência. Essas reuniões não permitem alcançar o mesmo nível de participação que ocorre nos lares; portanto, não é bom que sejam feitas todo mês. Recomendamos que sejam feitas uma a cada dois meses ou mais.

A quantidade e a duração das diferentes reuniões dependem de cada comunidade local. Um dos princípios da igreja neotestamentária é que as decisões são conciliares, coletivas – por consenso. Portanto, cada igreja decide que tipo de reuniões fará, e com que frequência. É recomendável que não falte nenhum dos sete tipos de reuniões. A comunidade pode também decidir unir dois tipos de reuniões numa só (por exemplo, estudo bíblico e oração). Na igreja onde nos reunimos, as reuniões de comunhão e lazer, as de serviço e as de organização, não ocorrem toda semana.
Infraestrutura e logística das reuniões
A comunidade deve decidir em consenso, os aspectos práticos das reuniões. Deve planejar as reuniões para que tudo dê certo.
O lar onde as reuniões eclesiaisocorrerão deve ser planejado e preparado. Quando a igreja decide se reunir somente em um lar (de uma das famílias da igreja), ela deve escolher um que possua bom acesso, estacionamentos à disposição (e com relativa segurança), e se estruturar para que a família que recebe a igreja não tenha um fardo muito pesado. Neste caso, os irmãos e irmãs devem se organizar em equipes para fazer a limpeza da casa (ou apartamento) dos anfitriões, depois das reuniões. Devem também compartilhar as despesas com a família anfitriã. Fazer essas coisas é uma contextualização do “lavar os pés” uns dos outros.

No caso da igreja revezar os lares – se reunir em diversos lares das famílias da comunidade de modo revezado – ela deve decidir a periodicidade do revezamento (se as reuniões ocorrerão em cada lar a cada mês, bimestre, trimestre, semestre etc.) e organizar a sequencia (o primeiro, o segundo, o terceiro lar etc.) do ciclo.
A família anfitriã (única ou em revezamento) deve garantir a limpeza prévia do local da reunião, principalmente do(s) banheiros(s). Por incrível que pareça, muitas pessoas que visitaram reuniões de igrejas não retornaram devido à falta de higiene dos banheiros.
Para as grandes reuniões, os líderes das diversas pequenas comunidades nos lares devem se reunir para planejar os locais, a periodicidade, a música (som, banda etc.), e os programas de cada evento.
Para as refeições comunitárias nos lares – a ceia do Senhor, cada família ou solteiro(a) membro deve contribuir trazendo sua refeição para compartilhar – com exceção dos irmãos financeiramente carentes (desempregados ou reconhecidamente pobres). Neste aspecto também não pode haver distinção entre os que servem e os que são servidos.
A comunicação deve ser um aspecto importante. Todos os membros devem estar sabendo com antecedência sobre os horários e locais das reuniões. Hoje em dia, isto pode ser muito facilitado devido à internet. Os irmãos podem se comunicar por e-mail ou redes sociais gratuitamente, e de modo bastante eficiente. É bom também anunciar, ao fim de cada reunião, o local, os horários e os preparativos das próximas reuniões.
A pontualidade é fundamental nas reuniões das igrejas orgânicas. Como as reuniões são participativas e ocorrem em pequenos ambientes, os que chegam atrasados atrapalham os demais, pois quando chegam, os outros irmãos já estão em oração ou em adoração, e os atrasados interrompem estes belos momentos com suas chegadas. Numa igreja institucionalizada, as cadeiras ou bancos são dispostos em forma de auditório, fazendo as atenções do “público” se voltarem para o pregador ou para o grupo musical, e os que chegam atrasados podem sentar-se mais atrás silenciosamente sem serem percebidos pelos que chegaram antes. Porém num lar, as cadeiras/poltronas e sofás são dispostos de forma circular, quadrada ou retangular. Todos se veem uns aos outros; portanto, os atrasados não chegam imperceptivelmente.
O brasileiro costuma ter problemas com pontualidade. Então, é preciso um trabalho sério de conscientização dos irmãos. Uma das sugestões para minimizar o problema da pontualidade nos lares é realizar um “cafezinho” meia hora antes das reuniões – uma mesa com  torradas, pães, biscoitos e o delicioso café brasileiro – para atrair os irmãos a chegarem antes da primeira atividade das reuniões eclesiais. Além do atrativo do cafezinho, o brasileiro “ama” cumprimentar os irmãos e botar os assuntos em dia antes de começar as reuniões. Antes de começar os cânticos ou orações, a mesa do cafezinho é retirada e os que chegarem atrasados o perdem. Temos praticado isto e os resultados são muito bons.

Nos próximos artigos, abordaremos com maiores detalhes, algumas das atividades realizadas em cada tipo de reunião – a música, o estudo bíblico, o lazer, as refeições, a oração e o serviço.
Paz do Senhor para todos os irmãos em Cristo.
FONTE: Marcio Rcha/Igreja Organica