As casas como refúgio na idade média – A Igreja na história

Quando investigamos o uso de casas e lares pelos irmãos na Idade Média deparamo-nos com duas limitações: a ausência de uma documentação clara e específica, destruída pelos opositores e o estilo de vida rural e campesino daquela época. Os poucos registros históricos deixam entrever que a revolução espiritual que antecedeu a Reforma e os avivamentos subseqüentes tiveram lugar, prioritariamente nos lares. Assim como os mosteiros serviram de berço onde as riquezas da palavra de Deus foram preservadas nas perseguições – cópias manuais das escrituras e trechos da palavra de Deus, as casas ou os castelos em feudos e colônias serviram de sementeira para as reformas espirituais.

 

Era costume, na Idade Média que as pessoas se reunissem em templos e catedrais para comungar, ouvir sermões e dar provas de sua fé em Cristo. Numa época em que a igreja institucional mantinha também um governo civil reunir-se fora dos santuários era sinal de rebelião. Esta cena passou a ser modificada com um dos pré-reformistas, Pedro Waldo (1160). Nascido em Lyons, Pedro Waldo, um próspero comerciante e banqueiro deu uma grande festa em sua casa, e foi levado ao arrependimento e confissão de pecados por um dos convidados. (Os que levaram Pedro Waldo ao novo nascimento não eram reformistas, mas irmãos que pertenciam a uma geração de crentes fieis que ocuparam desde o primeiro século até este período (ao redor do ano 1.100) os vales da França e da Itália).

Logo depois de convertido Pedro contratou tradutores que traduziram parte do evangelho no dialeto do povo. Pedro Waldo vendeu seus bens, doou parte aos pobres e ele mesmo se tornou um dos apóstolos waldenses despojados de qualquer riqueza. Ele e os seguidores escolheram a pobreza e dependiam que cada igreja, em cada localidade fizesse a necessária provisão para que os membros apostólicos continuassem sua missão.

A primeira menção deste período da história de que se reuniam em casas nos vales do Piedmont vem da pena do historiador E.H. Broadbent: “Quando as casas não mais comportavam e locais simples eram construídos, edificavam anexos, ou casas junto as demais para abrigar e cuidar dos pobres e idosos… Liam as escrituras, tinham adoração familiar todos os dias, e entre os que lhes pregavam a palavra estavam pessoas treinadas e capacitadas cultural e espiritualmente.” O próprio Papa Inocente III (1198-1216) testemunhou que os leigos treinados pregavam e ensinavam a palavra de Deus; e que os waldenses ouviam apenas os homens que tinham bom testemunho de Deus em suas vidas. 1Assim, numa época em que só o clero podia pregar e ensinar, Pedro Waldo liderou uma equipe que revolucionou a Europa nos 400 anos seguintes.

Deve-se levar em conta que a igreja institucional sempre tachou de hereges quaisquer movimentos contrários aos seus ensinamentos; exemplo do que quero afirmar éo conceito de que os alingenses eram heréticos, pois o que se sabe sobre ele procede de opiniões contrárias, já que era um movimento de busca pela santidade, daí seu nome, cátaros, ou puros.

A partir do século XII aparecem registros de que os irmãos usavam casas onde pobres e enfermos sobreviviam por doações de ricos benfeitores. Não eram conventos, mas casas, residências, e os que nelas viviam eram conhecidos como os paupérrimos de Cristo. 2

Duzentos anos depois, perseguidos pelo Papa Clement VII (1380) os waldenses eram queimados e torturados; as famílias que se refugiaram nas montanhas  morreram de fome e frio.

Não resta dúvidas de que a semente da reforma germinava nas casas, também no período de Wiclyff, de João Hus e dos Irmãos Unidos. Documentos que poderiam registrar a história dos Irmãos, dos Pobres de Deus e da doutrina ensinada em casas foram queimados. João Hus, a caminho do martírio em Constança, acompanhado por uma guarnição de mil soldados viu uma fogueira ardendo na praça da cidade onde seus escritos estavam sendo devorados pelo fogo. Anos depois os jesuítas se encarregaram de queimar os documentos e registros escritos por esses pré-reformadores, como os dos pobres de Deus, dos Irmãos e dos Amigos de Deus. 3 Broadbent relata: “Assim como anteriormente (referindo-se à época de Pedro Waldo) a literatura dos cristãos foi destruída e bem como a história escrita por seus inimigos, também no século XVI fizeram a mesma coisa, e, tendo em vista o linguajar violento comum daquele tempo é preciso pesquisar quaisquer resquícios do que eles escreveram”. 4

Perseguidos desde os tempos de Pedro Waldo, esses irmãos que decidiram viver a vida cristã conforme o modelo de Cristo e dos apóstolos, muitas vezes nem casas tinham nos vilarejos para morar e construíam pequenos agrupamentos de casas nas montanhas, como foi o caso dos Amigos de Deus de Oberland, cujo líder, Tauler construiu com seus recursos refúgios nas montanhas para os irmãos perseguidos. Tauler, um homem rico, usou de suas posses para ajudar os obreiros e apóstolos que viajavam por toda a Europa. Falava italiano e alemão e os registros históricos indicam que o pequeno local que os irmãos tinham nas montanhas era simples e modesto. Ele afirmou: “Não é melhor usar o dinheiro para ajudar os pobres do que construir um convento?”. 5 A fé simples e poderosa desses irmãos perseguidos, ameaçados, e lançados em fogueiras, semearam a Reforma por toda a Europa séculos antes de Lutero. Os próprios waldenses permaneceram por quase quatro séculos nos vales e montes até os tempos da Reforma.

O que se percebe nas entrelinhas da história é a existência de uma igreja orgânica paralela à igreja institucional buscando viver os mandamentos de Jesus Cristo. Por isso durante séculos as fogueiras arderam por toda Europa queimando mártires e livros.

Veja este dado da história:

Um século depois da Reforma de Lutero “foi solicitado ao Prior Marco Aurélio Rorenco, de Turim em 1630 que escrevesse um relato contando a história e as opiniões dos waldenses. Ele escreveu que os waldenses são tão antigos que não se pode indicar o tempo em que surgiram, mas que, no século IX e X não eram uma nova seita. Acrescentou que no século nono, longe de ser uma nova seita eram considerados uma raça de fomentadores e encorajadores de opiniões de pessoas que existiam antes deles. Depois acrescentou que Cláudio, Bispo de Turim era reconhecidamente um desses encorajadores, porque ele próprio negava reverência à cruz, rejeitava a veneração e invocação aos santos e era o principal destruidor de imagens. Em seu comentário sobre a epístola aos gálatas, Cláudio ensinava abertamente a justificação pela fé e apontava os erros da igreja que se desviara desta verdade.”

“Os irmãos que viviam nos vales nunca perderam a noção de sua origem e de sua continuação histórica. Quando a partir do século catorze os vales foram invadidos e as pessoas tinham que negociar com os governos, eles sempre enfatizavam suas origens. Ao Príncipe de Savoy, que os conhecia fazia anos, podiam sempre falar abertamente de sua fé afirmando que o que criam e praticavam vinha deste tempos imemoriais, desde os tempos dos apóstolos. Em 1544 eles disseram a Francis I imperador da França: “Esta confissão nós a recebemos de nossos antepassados, de pessoa a pessoa. (sic) Esta nossa religião que praticamos não é coisa desses dias, ou uma religião inventada alguns anos atrás, como afirmam nossos inimigos, mas é a religião de nossos pais e de nossos avós, sim, e de pais que viveram em tempos remotos. É a religião dos santos e dos mártires, dos que faziam confissão apostólica.”

Quando entraram em contato com os reformadores no século XVI disseram: “Nossos antepassados afirmavam que existimos desde o tempo dos apóstolos. Em 1689 quando os valdenses retornaram para seus vales, seu líder, Henri Arnold afirmou que sua religião é tão antiga quanto o nome deles é venerado, e cita o relato do inquisidor Reinarius, que num relato ao Papa sobre a questão da fé explica que “eles existem desde os tempos antigos”. Arnold relata que é difícil imaginar que este bando de fieis já existia nos vales do Piedmont por mais de quatro séculos antes da aparição desses extraordinários homens como Lutero e Calvino e os subseqüentes faróis da Reforma. A igreja nunca foi reformada para ter o título de evangélica. Os waldenses, de fato, descendem dos refugiados da Itália que, depois de ouvirem o evangelho pregado por Paulo, abandonaram seu lindo país e fugiram, como aquela mulher do livro de Apocalipse, para estas montanhas selvagens, onde até o dia de hoje guardam o evangelho, de pai para filho, na mesma pureza e simplicidade dos dias de Paulo, o apóstolo”. 6

Concomitante a isto, isto é, à preservação da fé em lares e grupos que se refugiavam em vales e montanhas da Europa, a famosa universidade de Oxford serviu de sementeira para que germinasse a idéia da Reforma entre a classe estudantil e professoral. Foi a partir da universidade de Oxford que John Wycliff influenciou a João Hus e Jerônimo de Praga. O certo é que havia muita gente estudando as escrituras e se reunindo em casas como resultado da influência dos waldenses, de Wycliff na Inglaterra e seus seguidores, os lolardos, e de João Hus na universidade de Praga.

Um dos amigos de Zwinglio (enquanto este estava a favor dos Irmãos, porque depois se tornou um dos maiores perseguidores dos anabatistas), Felix Manz se reunia na casa de sua mãe, uma fiel cristã. 7 Na grande perseguição luterana e zwingliana contra os Irmãos (anabatistas) a história registra que em Salzburg os irmãos que se reuniam na casa de um pastor foram pegos de surpresa e um grande número decapitado e afogado nas águas. (Existem dados históricos sobre a perseguição que as duas igrejas institucionalizadas da época, a Romana e a Luterana empreenderam contra os Irmãos, que eram mortos por afogamento, queimados ou decapitados. Dezenas de relatos de mortes por afogamento por parte dos seguidores de Lutero e de Zwinglio contra os Irmãos mancharam as páginas da Reforma).

Um dos períodos da história em que os irmãos passaram a se reunir em casas com maior freqüência, além das reuniões regulares dominicais foi durante o avivamento nos dias de Wesley e Whitefield através das chamadas sociedades. Elas tiveram sua origem, não em Wesley, pois existem registros de que em 1678 criaram-se “sociedades” para fortalecimento e enriquecimento espiritual dos irmãos. 8 “Tudo começou com os sermões de avivamento do Dr. Antony Horneck na capela Savoy. Horneck era o pai dessas sociedades desde seu começo.” O objetivo era organizar grupos de jovens para orarem, estudar a Bíblia e conferenciar entre si semanalmente. J. Woodward relata: “Eram pessoas na meia estação da vida que pertenciam a igreja da Inglaterra que foram tocadas com um profundo sentimento de pecado e passaram a levar a sério o compromisso de fé”.9 A razão desses grupos existirem em meio a uma igreja institucionalizada?

“Já que tinham os mesmos problemas espirituais, e todos buscavam uma vida de santidade, deveriam se reunir uma vez por semana dedicando-se a ouvir boas palavras e tudo o que fosse para edificação deles. Para que as reuniões tivessem ordem várias regulamentações foram estabelecidas para que o objetivo não se perdesse” 10As regras estabeleciam que as condições para que uma pessoa participasse das reuniões – santidade pessoal, comprometimento com o grupo, com as reuniões semanais da igreja, com o pároco, etc., – e deveriam trabalhar pelo bem-estar social, cuidar dos enfermos e colocar as crianças pobres nas escolas, opondo-se a todo tipo de jogo e entretenimentos mundanos.

Mais tarde ficou estabelecido que cada membro deveria trazer, pelo menos outra pessoa para as reuniões, o que aumentou consideravelmente o número de membros. No ano de 1698 havia trinta e dois grupos apenas na cidade de Londres. As sociedades ou grupos que mais cresceram foram as estabelecidas em 1701 por Samuel Wesley, pai de João Wesley em sua paróquia em Epworth. Mais tarde George Whitefield (1737) começou a pregar para esses grupos, e ele e João Wesley usaram as “sociedades” ou grupos para trazer aviamento para toda Inglaterra.

Ao que parece a Igreja não se reunia nas casas como um modelo para o avivamento, mas como forma de permanecer fiel aos ensinamentos dos primeiros apóstolos abandonados pela igreja dominante.

Seguindo a linha da história percebe-se que esses Irmãos foram recebendo nomes diversos ao longo dos séculos, especialmente dos pré-reformistas: irmãos, apenas irmãos desde os tempos do apóstolo Paulo; cátaros ou albingenses, os puros de Alby; waldenses, devido a Pedro Waldo, Lolardos, como seguidores de Wycliff, hussitas, por serem descendentes de João Hus, anabatistas, porque batizavam de novo, menonitas porque Simon Mennon os liderou por toda a Europa, e moravianos porque, esses mesmos Irmãos que por 350 anos peregrinavam pela Europa em busca de paz devido a perseguição foram acolhidos na Morávia nas terras do Conde Von Zinzendorf.

Deus tem seus fiéis ao longo da história. Que nossa casa sirva também de guardiã da Fé de nossos pais.

 

FONTE: João de Souza