A IGREJA QUE ESTÁ EM TUA CASA

Aracaju amanheceu com chuva. Incômodo para os que pretendiam ir para praia. Sigo para casa de Dona Josefa da Costa, Dona Nitinha, como é conhecida. Em minha breve passagem por Aracaju (estava fazendo pesquisa de campo em Salvador) faço questão de visitá-la. Em sua casa ela mantém há quase 30 anos seguidos (a completarem-se em 28 de novembro) o grupo de oração Vigia e Ora, que se reúne toda quarta-feira, em jejum, às 15 horas, num espaço que ela dedicou exclusivamente para esse fim. A Bíblia diz que devemos vigiar e orar para não cair em tentação, também que devemos orar sem cessar, mas não conheço um grupo desse tipo que o tenha feito por 30 anos seguidos. Os participantes do grupo devem tomar a responsabilidade de orar pelos pedidos de oração assim que se acordarem: “Ó Senhor, de manhã ouves minha voz; de manhã te apresento minha oração e fico aguardando” (Salmos 5,3).

Nitinha me recebe alegre. Seu pequeno aparelho de som toca hinos evangélicos tradicionais. Pede que me sente à mesa e dispõe café e torradas, pergunta se eu tomo café ou cevada, mas antes de comer faz questão de que demos graças. Seu cão permanece deitado olhando tudo de longe, parecendo estranhar minha presença. Após comermos, leva-me a conhecer o espaço de “Recanto de Deus”, reservado para as reuniões de oração. O espaço é simples e pequeno e tem bem ao centro o principal símbolo metodista: uma cruz com uma labareda de fogo por trás. Numa parede está escrito “Sejam bem-vindos”, ela me diz que antes havia alguns versículos escritos nas paredes, que devido a uma infiltração deram lugar a uma nova demão de tinta.

Em uma parte de sua estante estão empilhados, para serem usados durante as reuniões, vários exemplares do Hinário Evangélico, hinário que os metodistas usam, e que além de conter os seus hinos bonitos, contém antífonas para leitura conjunta, e rituais da Igreja Metodista. Sim, D. Nitinha é metodista. O Metodismo é um ramo da igreja evangélica que nasceu com as pregações de John Wesley que frisavam a necessidade de se ter o “coração aquecido” pelo Evangelho. Ela, hoje octogenária, conta que se converteu aos 16 anos de sua adolescência numa igreja, mas que quando se mudou para o Siqueira Campos passou a fazer parte da Igreja Metodista que fica na esquina de sua casa. Aliás, para ela Jesus é mais importante do que as intrigas e diferenças das denominações, por isso não vê sentido de se locomover para uma igreja mais distante se existe uma igreja evangélica perto. A não ser, ela complementa, se for uma dessas igrejas neopentecostais, porque tem coisas muito “estranhas”.

Mas para ela já estão aparecendo coisas “estranhas” na Igreja Metodista também. Claro que ela se refere ao processo de pentecostalização por que passam, não só a Igreja Metodista, mas muitas das igrejas chamadas de históricas ou tradicionais (sempre achei estranho opor ‘histórico’ ou ‘tradicional’ a pentecostal, como se o movimento pentecostal de já mais de cem anos não fosse histórico ou não já tivesse suas tradições). Aliás, se o “coração aquecido” com seus despertamentos foi, como advogam muitos, o antecessor do pentecostalismo, não é para se admirar que agora esse coração seja pentecostal.

D. Nitinha conta que a ideia de formar esse grupo de oração surgiu quando uma irmã veio do Rio de Janeiro e contou ter participado de um grupo assim lá, mas sendo enfermeira e tendo que dar vários plantões não tinha como ela mesma ficar à frente do grupo ou hospedá-lo em sua casa. A primeira reunião aconteceu então na casa da irmã Carmelita Eleutério, a reunião seguinte já passou a ser na casa de D. Nitinha. Nessa primeira reunião estiveram presentes seis irmãs, leram o Salmo 65, ficaram tocadas pelo versículo 8: “tu fazes alegres as saídas da manhã e da tarde”, oraram “orações fervorosas”, cantaram o hino “Vigiar e Orar”, oraram o Pai-Nosso. Um quadro logo na entrada do espaço que ela dedicou à oração conta a história do grupo. Segundo esse, na primeira reunião estavam todas “sedentas de orações”, e quem deu o nome do grupo foi o pastor Justino Nunes, falecido recentemente (por isso D. Nitinha se emociona ao falar dele).

Ela procura para me mostrar a filmagem em dvd dos 21 anos do Vigia e Ora. Ponho o vídeo para passar no aparelho de dvd da sala. Ela se emociona ao ver na gravação algumas pessoas: o falecido pastor Justino, sua irmã Terezinha, falecida há poucos anos, e aponta para outras pessoas no vídeo, “aquele quando chegou aqui tinha problemas com alcoolismo”, “essa se converteu aqui em casa”, “a menina que está cantando está com câncer e nós todo dia oramos por ela”. Na ocasião dos 21 anos do grupo ela tinha saído recentemente da UTI, isso chamou atenção dos vizinhos que ao verem tanta gente chegar para a comemoração pensaram que era o enterro dela. D. Nitinha revela, então, preocupar-se com a continuidade do “trabalho” depois que ela morrer, pois Miriã, sua filha não é crente.

O tempo passa rápido, meu ônibus para o Recife parte ao meio-dia. É hora de me despedir. Antes de sair, porém, ela me presenteia um exemplar do Hinário Evangélico que vim folheando em parte da viagem. Josefa Costa, dona Nitinha, quando na “ativa”, trabalhou como enfermeira no extinto Educandário Evangélico, que era mantido pelos metodistas em Aracaju. Sua vida encarna o antigo lema metodista: “Cada metodista, um missionário; cada lar, uma igreja”.

Júlio César T. Dias,
Mestre em Ciências da Religião pela UNICAP, doutorando na UFJF